sábado, 2 de janeiro de 2010

King of the Stone Age



Havia combinado com Bárbara para que dessem início ao projeto que o professor de Circuitos solicitara semanas antes. Por acaso encontrou-se com um colega de sua turma de Física Experimental e foi avisado de que a prova final seria no dia seguinte. Como havia combinado uma bebedeira pra esse dia, concluiu: "Reprovarei em Física Experimental".

A conclusão soaria estranha para alguém que não o conhecesse bem, mas era resultado apenas de auto-conhecimento. Na verdade, o maior problema que enfrentava nos últimos tempos era não conseguir estudar de modo algum. Não iria, portanto, trocar sua diversão por esforço e fracasso quase certo. A primeira prova de Física bastava como trauma e, como possuíam conteúdos semelhantes, nem se daria ao trabalho de tentar. Além disso, havia uma pequena chance de que o professor lhe deixasse fazer a prova em outro dia. Todas as suas estratégias para se tornar um bom estudante fracassaram e estava sem idéias.

- Onde beberemos?
- Lembra daquele bar ao lado da sinuca? O da Letícia? Vamos pra lá.

Ao chegarem no bar, o primeiro desapontamento: a promoção de chopp em dose dupla havia
acabado. Não que fosse um bêbado, mas, na verdade, era. A princípio estava vazio, mas conforme
aumentavam as garrafas na conta, surgiam mais pessoas ao redor. Já era noite quando uma loira
senta na mesa ao lado. Era interessante, tinha rosto de menina, mas também olheiras, como as dele,
além disso, um sorriso espontâneo e luminoso, elegante, seios médios, quadris médios, cintura fina
e belas pernas...

- Tudo bem, dona Letícia? Por acaso está esperando algum filho da puta?

Letícia apenas deu um belo sorriso e o cumprimentou, como se naquela situação não houvesse nada
de inesperado.

- Eu já ia dizer que conheço esse homem perto da minha mesa! Hahahaha!

Pedro não conseguia acreditar muito bem no que estava acontecendo, de qualquer forma sabia que
não gostaria da explicação de Letícia, independentemente de qual fosse.

- Você não deveria estar no Rio?
- Pois é, tive que voltar pra resolver uns assuntos, apartamento, carro... Estou aqui desde o início da
semana.
- Poxa, Letícia, eu preferiria que você tivesse mentido pra mim.
- Por quê?
- Porque o mundo seria menos esquisito. Que coincidência do caramba!

Ela parecia alheia ao que estava acontecendo, não só não achava coincidência, como foi necessário
da parte dele uma boa desenvoltura com palavras e explicar noções de probabilidade para convencê-la.

- Nossa, você é bom em estatística!
- Sou engenheiro. Hehehe
- É verdade, lembrei agora.
- E então, o que veio fazer aqui?
- Bom, vim resolver o assunto do apartamento que eu alugava.
- Você ainda está com seu carro?
- Sim, estou com ele aqui.
- Veio de carro?
- De carro?? Não, vim de avião.
- Hum...

"Ela largou o carro aí por dois meses? Tirou uma semana de folga só pra devolver um apartamento?
Ela manteve um apartamento alugado por dois meses? Não, ela está mentindo, mas por quê e até
onde?". Sabia que ela trabalhava mesmo como Assessora e era carioca, todo o resto poderia ser mentira. De toda forma, não perderia tempo com isso, aquele sorriso não permitia interrogatórios. “Tenho que pegar dessa vez!”.

A conversa tomou um rumo parecido com a da primeira vez, mas dessa vez com gosto de comida
requentada. Enquanto urinava, percebeu que estava desperdiçando tempo precioso, resolveu
encurtar o caminho. Ao retornar contou a ela sobre sua conclusão no banheiro e tentou beijá-la. Ela recusou.
Tentou mais algumas vezes e, diante das negativas, perguntou quem era a outra pessoa na história.

- Estou namorando.
- Hum... É, sabia. Mas o cara é daqui ou...
- Ele mora no Rio também, nós já tínhamos namorado antes e agora voltamos. Naquela época, nós não estávamos juntos.

Para Pedro era muito fácil acreditar nisso, em primeiro lugar, porque a rejeição dela só se justificaria, sem magoá-lo, se ela tivesse outro e, em segundo lugar, porque ele precisava desesperadamente preservar seu ego naquele momento. A auto-confiança seria essencial naquela empreitada. Após alguns minutos, a conversa tomou um rumo mais direto e que ele considerava melhor, ainda que a sinceridade raramente lhe rendesse algo de bom com qualquer mulher.

- Talvez o ideal seja mesmo uma formação triangular, mas nossa cultura não está preparada.
- Não acredito no que eu to ouvindo! Hahahahaha!
- É sério. É muito difícil, senão impossível, encontrar tudo de que se precisa em uma pessoa só. A terceira pessoa seria uma compensação.

Uma hora depois, toda a conversa sincera já era insuportável, eventualmente se aproximava dela, mas apenas conseguia lhe cheirar o pescoço, o mesmo cheiro que se manteve em seu celular por uma semana. Ela, no entanto, não o deixava, também nisso, prosseguir por muito tempo.

- Ué, não posso fazer um carinho no seu rosto?
- Ah, não é legal, pense se o meu namorado ou a sua estivessem aqui, eles não gostariam.
- Mas eles não estão, não sabem e nem precisam saber.
- Não, Pedro, eu fico aqui com você e depois com que cara vou me encontrar com ele no Rio?
- Dizer que estava morrendo de saudades, quando na verdade estava com você?
- Mas só porque você saiu comigo não quer dizer que não tenha sentido saudades. Se ele está lá e nós aqui, não saberá e não ficará magoado, só haverá benefícios pra nós dois... O problema é que as pessoas acham que o mundo gira em torno do próprio umbigo, você sair comigo não tem nada a ver com a minha namorada ou com o seu, tem a ver comigo e com você. Da mesma maneira se fosse o contrário.
- De novo a argumentação! Hahahahaha! Você nunca pensou mesmo em fazer Direito?
- Mas é verdade, isso é bobagem. Imagine que ele te pergunte se você foi fiel e que você lhe faça a mesma pergunta, como saberá se ele não saiu com outra? Na verdade, não é necessário contar tudo, só o que importa.
- Mas não me importa se ele tá fazendo isso por lá, realmente, tem a ver comigo e não com ele.
- Mas eu sou assim, não acho certo. É o que penso e pronto.

Era difícil aceitar a derrota, mas ele sabia que uma boa argumentação nunca seria o suficiente para se conquistar alguém, a vontade era imprescindível e ela não tinha nenhuma. “Namorado carioca filho da puta!”.

- Vamos pedir a saideira e ir embora, Letícia?
- Vamos, tenho que ir mesmo... O seu carro hoje está onde? No trabalho de novo? Hahahaha!
- Não, hoje estou sem o carro. Hehehehe! Mas estou morando bem perto, partindo daqui, minha casa é mais próxima daqui que o trabalho.
- Tudo bem, eu te deixo lá, então.

Durante o caminho conversavam amenidades e sobre como havia sido bom se conhecerem, enfim, o típico papo de rejeitadora e rejeitado. De certa forma, ele gostava disso. “Só há vantagens em se acostumar a esse tipo de coisa, porque é realmente bobagem”.

- Pois é, Letícia, que pena que você vai, de novo, tão cedo... Foi mesmo um prazer te conhecer.
- O prazer foi meu, querido. Você é um cara muito divertido, muito gente boa.
- Só não valho nada, né? Hahahahaha!
- Hahahahaha! Isso! Só não vale nada! Mas é gente boa. Hahahaha!

Pedro recuperou completamente o espírito de caçador de duas horas antes, não havia nada melhor que ouvir isso de uma mulher! Cachorro era seu predileto, mas safado e canalha também serviam para exprimir esse mesmo sentimento por parte das mulheres, o tesão potencial. Acreditava que isso talvez se relacionasse com a baixa probabilidade de que uma mulher pense nas safadezas, canalhices ou cachorradas que um sujeito faz, sem que o imagine fazendo essas coisas. Mas o porquê de isso as atrair, ao invés de repelir, ele sequer imaginava. “Talvez seja herança primitiva”. Mas não era hora para conjecturas.

O carro já estava parado em frente a sua casa e se despediam. Aquele momento era seu porto seguro, quantos beijos de mulheres amealhara durante os anos dessa mesma forma... Não gostava de beijos roubados, por isso fazia questão de mover-se gentil e lentamente, para que a garota soubesse explicitamente o que oferecia e ele também tivesse certeza do que recebia. Aproximou-se da face de Letícia e a beijou na bochecha direita. Ela esperava que, como da primeira vez, ele tentasse então lhe beijar a boca e por isso virou o rosto para evitar a tentativa. Porém, ele apenas cheirou-lhe cabelos e pescoço, pouco antes de começar a beijá-los suavemente e acariciar sua nuca com a mão direita.

Após um breve intervalo, Letícia não mais exitou e cedeu os lábios em um beijo demorado. Um beijo, porém, não seria mais que repetir a mesma coisa, dessa vez ele queria mais, queria tudo. Ela, no entanto, estava decidida a conceder nada além daquilo. Durante os beijos ele tocava sua perna e então ela se afastava, ele a beijava novamente e fazia uma nova investida. Já não calculava qualquer coisa, estava tomado, tornou a cheirar-lhe o pescoço, queria se despedir daquele perfume... Tornou a lhe acariciar a nuca.

- Esse cheiro, garota, esse cheiro...

É possível que Letícia estivesse passando por uma crise terrível naquele momento, mas dificilmente alguém resistiria por muito tempo a um jogo desse tipo, além disso, seus suspiros provavelmente a impediam de ouvir qualquer voz interna que a mandasse parar. Usando a mão que a acariciava, puxou levemente seu rosto e começou a beijá-la tão intensamente que sentia seus lábios arderem, ela ofegava e retribuía as carícias. Ele então começou a acariciar sua coxa e virilha com uma das mãos, enquanto a outra lhe afagava cabelos, nuca e orelha.

- Que pele macia, puta merda, você é muito gostosa...
- Você tá achando que eu sou de ferro, é? Eu não sou de ferro, não!
- Você tem que sair comigo, não consigo ficar sem você hoje, não consigo!

“Caralho! Que gostosinha, cheirosa! E esse sotaque tá me deixando maluco!”. E ela provocava.

- Você vai sofrer mais!
- Impossível! Não consigo ficar sem você hoje! Gostosa!

Ela levantou-se do assento e ele segurou sua bunda e, por cima da calcinha, começou a roçar-lhe com os dedos a entrada da vagina. Colocou a outra mão dentro de sua calcinha. A boceta era muito macia e sem pêlo algum, começou a roçar seu grelinho e quando estava prestes a penetrá-la com os dedos, ela se desvencilhou dele.

- Não, Pedro, não dá, já chega, já foi longe demais...
- O quê???
- Melhor a gente parar por aqui... Já conversamos sobre isso e eu estou fazendo exatamente o oposto de tudo que eu disse!
- Não, Letícia, você não pode parar agora, isso é maldade! É muita maldade!
- Não, chega, olha onde a gente está, se a polícia vier aqui, estou perdida.

Ele ainda a beijou e fez com que acariciasse por cima da calça, mas não adiantou muito, ela estava irredutível. Acabou voltando com ela, numa tentativa desesperada, para o bar de onde saíram, que sabia estar próximo do apartamento dela. No fim, teve que voltar de táxi para casa e de mãos abanando.

- No dia seguinte, ela ligou.
- E aí, moleca, tudo bem? Onde você está?
- Estou num táxi, indo pra casa...
- Eu estou perto da sua casa, não quer me ver?
- Não, querido, não dá. Eu não confio muito em mim, quando estou com você.
- Sério? Por que você é o maior exemplo de força de vontade que já conheci.
- Há há há. Tudo bem, disse uma coisa e fiz o contrário, eu sei.
- Não, falo sério. O que aconteceu ontem foi novidade pra mim, nunca vi alguém chegar tão longe e conseguir voltar. Achei impressionante.
- Pois é, eu te avisei que não adiantaria ir comigo até minha casa, mas você foi teimoso.
- Hahahaha! O caso é que você tinha dito isso sobre me beijar e mesmo assim mudou de idéia. Se eu não tentasse te fazer mudar de idéia a respeito disso, me arrependeria muito depois.
- É verdade, você está certo.
- Enfim, você me ligou então para se despedir?
- Pois é, infelizmente.

Dessa vez tinha a nítida impressão de que a veria de novo...

- Tudo bem, Letícia... A gente se esbarra.

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