sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

Laettitia Stone (Parte 1)

Na noite anterior, se irritava lembrando da última conversa com seu chefe, em parte por ele ter apenas 22 anos e apenas um ano de experiência de trabalho durante toda a vida, mas principalmente por não conseguir se defender como deveria mediante as acusações que lhe fizera.

A razão para isso, só então percebia, era de que ele próprio se sentia envergonhado por sua incapacidade de se concentrar naquele trabalho estúpido, incapacidade que se relacionava intimamente à de se concentrar em seus estudos de engenharia, neste caso, algo que realmente lhe importava.

O grande problema não girava em torno da eficiência em ambos ambientes (que ele não havia desenvolvido apropriadamente), mas da impossibilidade de agir de outra maneira. A falta de liberdade sempre o incomodou e agora se sentia preso a uma situação extremamente desagradável, muito mais que do chefe menino, sentia vergonha diante da própria consciência. Tinha responsabilidades (inventadas, mas muito bem embasadas) e queria cumprí-las. Acreditava que seus princípios de nada valeriam sem a correspondente coerência.

"Se sei que não resistiria à essa tentação, evitarei entrar num elevador com ela."

As palavras que seu tio lhe confiara anos antes adquiriam o devido tom de autoridade em sua memória e se tornavam a resposta que lhe devolveria o sono. Após algumas anotações num pedaço de papel, deitou-se. Desde a mudança, acordava muito cedo, devido à exposição de seu quarto, que não tinha cortinas. Não se incomodava, sentia que era uma transição bem natural e agradável entre o sono e o despertar, até desejava ter pensado nisso antes.

- Quando arranjar cortinas, só usarei nos fins-de-semana.

Pegou uma calça pendurada e no armário a camisa que menos gostava, achou ainda o papel da noite anterior e leu novamente antes de jogá-lo fora, o trabalho o aguardava. Havia conseguido enganar ao chefe e ao chefe de seu chefe, entregando um processo difícil, aparentemente concluído, mas cheio de falhas difíceis de perceber. Sua esperança era de que descobrissem isso durante suas férias, muito próximas, assim eles mesmos tapariam os buracos.

Era subordinado a pessoas muito inferiores (pelo menos é o que achava) e acreditar nisso o ajudava a manter o orgulho na hora em que se justificava pelos erros cometidos, já que não poderia (ou deveria) dizer que simplesmente não se importava com o trabalho e preferia participar e aprender o menos possível daquilo tudo. Por outro lado, seus chefes queriam extrair o máximo possível dele e por essa razão não admitiriam a derrota, terminariam o processo em sua ausência. O dia estava bonito e seu humor estava ótimo.

-É, hoje é dia de descanso. Não trabalharei, enrolarei aqui até a hora de sair.

Algumas horas mais tarde levou uma bronca do chefe por essa atitude, pegou o único serviço que encontrou e o completou com todo o cuidado antes de ir embora. Sua vida se dividia entre trabalho, família, amigos e universidade havia algum tempo, gostava da agitação, mas sentia apenas que conseguia ser um funcionário, marido, amigo e estudante ruins. A conclusão da noite anterior lhe tornou à mente: "é mais fácil desviar de um buraco na estrada". Acreditava estar adiantado dois passos, mas não tinha certeza a respeito do terceiro. Se considerava um cara muito bacana, não queria mudar, tinha certeza de que, se fosse um bom servidor, seria um ser humano banana, mas, de toda forma, sabia que o mundo não se adaptaria a ele e ainda não podia dispensar o emprego. A caminho da faculdade, amadureceu sua mais nova idéia.

- Bárbara! Tudo bem, mocinha?
- Aham. E você?
- To bem, sim. Estudou pra prova?
- Não, não tive tempo, acho que vou entregar em branco mesmo.
- É, eu dei uma lida, mas não cheguei a fazer exercícios, acho que finalmente entendi algo importante do conteúdo.

Considerava Bárbara um mistério, tímida, bacana, bonita, inteligente, não entendia, portanto, aquela aliança de compromisso em sua mão direita, principalmente porque o namorado dela era um bobalhão. Muitas vezes achou ter encontrado a resposta, que ela estava com ele pelos amigos, a solidão costuma amedrontar pessoas tímidas, ainda que pareça o oposto. Depois concluía que não só aquilo não era de sua conta, como era muita arrogância achar que qualquer mulher que não estivesse esperando por uma chance de ficar com ele era estranha.

Duas horas após entrar em sala, abandonou a prova, não conseguiu fazer a única questão e, dentro dos 40 minutos oferecidos, limitou-se a descrever vetores, na esperança de que isso lhe rendesse alguma pontuação. Visualizou dois métodos, mas não era familiarizado com nenhum dos dois, o tempo não esperaria que ele estudasse para a prova durante a prova. Segundo zero na matéria. Reproduziu com amargura a questão após sair, prometendo a si mesmo que a resolveria em casa, com mais tempo disponível. Decidiu se chatear com isso depois, ainda tinha direito a falhar mais uma vez, pois apenas as cinco melhores notas dentre oito seriam consideradas para compor a média final, até onde sabia, ainda poderia tirar nota máxima na matéria.

O telefone toca, havia planejado comemorar o aniversário de um amigo. Na verdade, convencera esse amigo a adiar a própria festa, próxima a sua, para que, num churrasco, comemorassem juntos. Entretanto, quando um problema de convites disponíveis impossibilitou que o amigo chamasse a família, decidiu mentir, que a festa não aconteceria, mas que poderiam comemorar bebendo juntos. Um terceiro amigo os acompanhou em parte da comemoração, foram ao shopping e beberam, enquanto aquele comprava botas. Tomaram assento no que considerava uma das melhores idéias comerciais dos últimos tempos, botecos simples espalhados pelos shoppings, o que unia a vontade de beber dos homens com a correspondente falta de vontade de acompanhar as parceiras enquanto estas faziam compras. Após receberem os chopps, iniciou a conversa:

-Acho até bom que o Gabriel não tenha ficado, ele é muito anarquista, não dá pra conversar direito.
- Mas eu também sou assim, gosto de ser diferente, se me pedem uma coisa gosto de fazer o contrário, só pra ser diferente.

Era uma maneira estúpida de se iniciar uma conversa, mas aquele sujeito tinha recentemente adquirido um status maior em seu círculo de amizades, tinha crédito, portanto. A mudança aconteceu quando descobriu que o amigo lhe tinha grande consideração, mesmo quando o sentimento não era recíproco. "Ser meu fã e inteligente", eram requisitos que Anderson agora preenchia. Tais requisitos se deviam a sua crença de que, numa amizade ou relacionamento qualquer, a reciprocidade era fundamental. Como a inteligência era o que mais valorizava em alguém, isso servia de filtro para suas amizades e relacionamentos, essa admiração, então, necessariamente deveria ser recíproca, ainda que por razões diversas.

- Tenho muitas coisas em comum com o Gabriel, desde a mania de ajustar o retrovisor até o fato de já ter jantado bebendo chocolate quente, algo que você não deve ter ouvido de muitas pessoas.
- Nenhuma...
- Enfim, ele é muito inteligente, mas é bobo, só quero conversar sem conflito de egos. Hoje meu chefe brigou comigo, o moleque tá me enchendo o saco. Também temos em comum os problemas no trabalho, estava pensando sobre isso hoje. Me lembrei de um conselho que meu tio me deu há muitos anos e que talvez seja um dos melhores que já recebi. Ele me disse que, se sabia que não conseguiria resistir a uma investida da Jennifer Lopez caso estivessem sozinhos dentro de um elevador...
- Então ele não entraria no elevador...
- Exatamente! Meu tio será fiel por toda a vida, desde que não entre num elevador com a Jennifer Lopez e ela queira agarrá-lo! Utilizando o auto-conhecimento, ele se tornou perfeito em uma área importante de sua vida (para ser perfeitamente fiel, basta que não se traia, as mulheres concordam). É evidente que outro componente importante é a humildade, admitir os próprios limites. Quando nascemos, temos programadas as funções vitais e características hormonais e físicas, essa programação criará uma tendência, uma probabilidade maior de responder de determinada forma a um determinado problema. Fatores sociais e a cultura de onde se nasce também contam.

A partir daí, começamos a aprender a viver , testar limites, raciocinar e compreender eventos lógicos e suas consequências, usar analogias, desenvolver a empatia...Se essa jornada tem início desde o nascimento, quanto mais velho se é, mais difícil será mudar reações desenvolvidas ainda na infância. Porém, se considerarmos que as reações foram conclusões lógicas sobre respostas adequadas a um tipo de problema e que as fundamentais foram sugeridas por uma criança, hoje poderíamos analisá-las com olhos experientes e substituí-las, se necessário. Isso exigiria uma mudança de atitude constante, até que os antigos hábitos fossem mesmo substituídos.

Isso só vale quando se quer alterar profundamente a personalidade, não é o que eu quero. Acho que somos definidos muito mais por nossos princípios que pelos atos, então mudar um hábito seria mais fácil que que mudar a personalidade. O problema é que só se muda efetivamente um hábito quando se altera um princípio, uma reação basal, que será, em última instância, a própria base da personalidade! E é aí que o elevador se torna uma figura tão importante! Mudar um hábito que faz parte de nossa personalidade é ineficaz, porque ou se abandona o hábito ou se abandona a si mesmo. Mas mudar um hábito que não é particular de sua personalidade, que não o define, para alterar os resultados a seu favor, utilizando para isso seu auto-conhecimento é uma idéia muito boa.

Anderson escutava com atenção e limitava-se a concordar movendo a cabeça. Saindo dali deixaram Gabriel na faculdade e foram jogar sinuca. Após pegarem duas cervejas com atendentes muito simpáticas, começaram a jogar. Anderson venceu a primeira com dificuldade (ambos pareciam péssimos), mas na segunda já jogava muito bem.

- Nossa, Anderson, como você conseguiu jogar tão mal, sendo tão bom jogador? Você deve me respeitar muito mesmo... Isso é que é amigo!

Tendo dito isso, venceu a partida quase perdida e também a seguinte.

- Pronto! Agora que venci duas vezes, podemos ir embora. Hahahahaha! Vamos que ainda dá tempo de pegar a dose dupla no Botequim!

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