sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

Laettitia Stone (Parte 2)








O bar estava ótimo, algumas mesas disponíveis, mas cheio de gente. Escolheram uma mesa ao lado da mais cheia, perto de várias mulheres. Na mesa do lado oposto, uma loira chamava a atenção principalmente por estar bebendo sozinha.

-E aí, Anderson, que horas são?
-Ainda dá tempo de pegar a dose dupla, a gente bebe rápido. Ah, sim, vamos pedir alguma coisa pra comer?
-Daqui a pouco a gente pede alguma coisa.
-Não, tudo bem, se não estiver com fome, a gente pede depois.
-Cara, essa morena não pára de olhar pra cá, deve estar na seca. Ouve só, ela já tá falando merda, que gosta de transar de tal jeito, que deu mole pro cara e o cara não fez nada... Adoro mulher assim, bem puta mesmo. Você já sabe o que vai fazer, vai beijar, levar pra um canto, tirar o pau pra fora e deixar que ela use a criatividade.
- Hahahahahaha!
-E essa loirinha aqui do lado, olha a carinha dela, será possível que ela tá esperando um cara? Já faz um tempão que a gente tá aqui e ela só bebendo sozinha...
-Vai lá falar com ela, ué.
-Cara, eu... Eu... Eu to quase falando com ela. Não aguento! Mas ela deve estar puta da vida por esperar esse tempo todo, além disso, ela está esperando alguém, não vou falar nada. Depois ainda levo patada, pra deixar de ser curioso.
-Fala, rapá. Ela tá sozinha mesmo.
-Já sei, faz o seguinte, peça o isqueiro emprestado pra ela. E eu falo com ela, pode deixar, só peça o isqueiro.
-Não, você fala.
-Eu não fumo, porra! Peça o isqueiro, que eu falo com ela, pode deixar.


Era interessante, tinha rosto de menina, mas também olheiras, como as dele, além disso, um sorriso espontâneo e luminoso, elegante e seu corpo era bonito, seios médios, quadris médios, cintura fina e belas pernas. “Que gostosinha”, pensou. Anderson se adiantou:

-Oi, você pode me emprestar o isqueiro?

Anderson era rápido e certeiro, já se distanciava bastante da pessoa tímida de anos antes, quando se conheceram. “Como ele evoluiu.” Sentia-se orgulhoso, talvez como um irmão mais velho, afinal, sabia ter sido um dos primeiros professores dele, em se tratando de não ter medo de falar com pessoas, e por mais que discutissem o amigo nunca lhe negava esse fato. Aproveitou a chance:

-Me diz uma coisa: você está esperando algum filho-da-puta?

Era uma abordagem controversa, principalmente por frisar bastante a palavra filho-da-puta, mas ele gostava da ousadia. Não queria ser diferente, como Anderson havia dito horas antes, apenas era diferente e gostava disso. Tinha certeza de que podia dizer qualquer besteira para iniciar uma conversa com uma mulher, bastando que houvesse tempo suficiente para desenvolver o assunto. Nesta ocasião, estava certo, Letícia sorriu:

-Se eu estivesse, não acha que já teria ido embora há muito tempo?
-Bem, se não está, não quer se sentar com a gente?
-Hum... Tudo bem, por que não, não é? Já estava indo embora, mas vou me sentar um pouco com vocês.

Sua primeira impressão foi de que Letícia era uma mulher muito segura, não tomou suas palavras como ofensas, até gostou, pareciam desafiadoras. Soube de cara, pelo sotaque, que era carioca e sempre ouviu que cariocas exigiam uma conversa muito boa antes de liberar qualquer coisa.

-Nossa, seu raciocínio é rápido! O que você faz?
-Sou técnico administrativo na USP, mas estudo Engenharia Elétrica.
-Você é muito bom em argumentação e muito rápido, seria um bom advogado.
-Hahahahahaha! É mesmo, bacharelzinha?
-Olha! Hehehehe! Não sou bacharelzinha, não. Já estudei muito.
-Tudo bem, só queria te provocar mesmo. E você trabalha onde?
-Por enquanto, sou assessora no Tribunal de Justiça . Mas acabo de ser nomeada para juíza do TRF/RJ.
-Caramba! Parabéns! Porra, Anderson, sentiu essa? Hahahahaha!

A situação só piorava, de carioca-difícil seu alvo se tornou uma juíza-federal-carioca-impossível. “Talvez ela seja inteligente o suficiente para notar que eu sou o máximo”. Sabia que suas teorias e pensamentos, não raro, beiravam o delírio, mas isso o divertia. Muitas vezes ria sozinho lembrando de pensamentos insanos que tivera.

-Meu pai é desembargador e minha mãe é cirurgiã...
-Porra, Anderson, aí o que eu te falava sobre genética colaborando... E você tem irmãos, Pedra Letícia?
-Hahahaha! Nem vem que eu sei que isso é o nome de uma banda!
-Hahahaha!
-Tenho, sim, dois irmãos, os dois são médicos.
-Mas vocês, menininhas, estão sempre indo na onda do papai, né? E seus irmãos, claro, na onda da mamãe.
-Hahahaha! Pois é...

A conversa tomou um rumo pessoal a partir daí, Anderson se cansou de não participar e foi embora. Contou a respeito da família, sobre praticamente todos seus princípios e crenças, encheu tanto os ouvidos da pobre garota, que se cansava só de lembrar parte da conversa. Letícia, no entanto, parecia se divertir bastante e até o chamou de figura algumas vezes, além de reiterar o que ela considerava sua verdadeira aptidão: “Isso é raciocínio de advogado...”. Ele ria consigo, achava estranho que as pessoas que talvez menos contribuam com o desenvolvimento acreditassem que todos que são inteligentes deveriam ser como eles.

-Você! Você era o cara que amarrava meus cabelos no colégio!
-Hahahahaha! Isso mesmo! Era eu! Era terrível na escola: mau, covarde, arrogante, muito inteligente e lindo! Hahahahaha!
-Hahahahaha! Mas você melhorou agora, né?
-Deixei de ser mau e covarde , mas a arrogância diminuiu bastante porque já não sou mais tão bonito e nem tão inteligente! Hahahahaha!

Letícia ficou por mais três horas, a contar do momento que disse estar de saída. Saíram juntos pois ele precisava de carona até seu carro (que estava no trabalho). Quando chegaram ao estacionamento da USP já tinha uma estratégia definida, daria um beijo em sua bochecha e depois demoraria um pouco mais que o normal para voltar ao seu lugar e ela, após perceber o recado, aceitaria o beijo. Após se despedir dela, percebeu que esquecera a chave de seu carro no carro do amigo que partira horas antes.

Não disse nada, esperou que ela fosse embora e andou até o comércio mais próximo. “Nossa, que beijinho gostoso... Salgado, mas gostoso. Ela deve ter achado o mesmo do meu, inclusive a parte do sal, é a cerveja... E que cheirosa! Caralho, peguei uma juíza, ou quase... Hahahaha!” Chegando ao comércio percebeu que também esquecera o telefone celular, dessa vez no carro de Letícia. Lembra-se de que no mesmo dia havia colado o telefone com fita adesiva e se desespera. “Jumento! Jumento! Sou um jumento! Porra, agora ela vai me achar um mendigo! Hahahahaha!”

Sempre tinha crises de riso quando fazia alguma besteira grande, o riso lhe servia de escape para diversas situações, o problema principal desta era que seu telefone possuía muitas informações íntimas, fotos ridículas, mensagens. Também lhe preocupava a possibilidade de a namorada ligar para o telefone dele, pior ainda, o contrário também poderia acontecer. Outro problema é que não conseguia se lembrar da segunda metade do telefone dela e só o tinha anotado no celular. “Puta merda! To fudido! Que burro! Burro!”

No outro dia pesquisou o telefone do gabinete em que ela disse trabalhar. Antes tentou ligar para o próprio número, mas ela não atendeu, melhor assim.

-Letícia?
-Oi, querido, sou eu.
-Acho que esqueci meu telefone no seu carro, aliás, o telefone do Marcos.
-Pois é, to com ele aqui no trabalho fiquei sem saber o que fazer.
-Tudo bem, passo aí pra buscar.

Anderson tinha mania de dar um nome falso às mulheres que conhecia. Segundo ele, Marcos era o safadão que existia dentro dele. Enquanto esperava por Letícia do lado de fora do Fórum, sentou-se ao lado de uma senhora muito idosa e magra. Ela começou a falar alguma coisa, inaudível a princípio, mas que depois se tornou clara, estava com fome. Achou interessante que ela resmungasse, mas não pedisse dinheiro, começou a sentir-se mal com a situação e saiu do banco onde estava. Sentiu-se pior e voltou.

-A senhora quer dinheiro?
-O quê?
-A senhora quer dinheiro?
-Não to entendendo o que você tá falando, meu filho. Fale mais alto.
-A se-nho-ra quer di-nhei-ro?
-Ora, meu filho, se você quiser me dar, eu aceito.

Ele queria. Ao encontrar Letícia descobriu que era seu último dia no tribunal. Tinha que cuidar da documentação para a posse. Pegou de novo uma carona até o carro, após insistência dela, acreditando que o motivo era um beijo de despedida. Não era.

-Semana que vem você ainda volta, não é?
-Pois é, volto pra devolver o apartamento e pra minha despedida.
-Então me liga. Eu também posso te ligar, encher o saco. “Avise quando vier, avise quando vier!”
-Hahahahaha!
-Foi um prazer.
-O prazer foi meu, Pedro.

Decidiu pensar que não havia sido enganado, porque ela lhe contara na noite anterior que iria embora de São Paulo, ele apenas não supôs que seria no dia seguinte. Também teve culpa por beijá-la no último minuto de sua noite juntos, não a veria de novo. Voltou ao trabalho empolgado, ainda havia muito a se explorar e aprender... Adeus, Letícia.

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